Um copo de saquê. Uma conversa sobre bairros de uma mesma cidade, com galpões e vernissages que se distinguem. Me deram a chave do carro. Prefiro os vidros abertos, mas ligam o ar-condicionado. Entro numa avenida coberta de sol. Um sol que não condiz com o frio dos últimos meses, como um palavrão num discurso de padre. Começa a lei do fumo, mas ninguém fuma. Piadas. Não consigo rir. Mas fico feliz pela alegria do carro. Estaciono na sombra de um prédio e espio um casal que não combina, talvez busquem sexo. Mas é só um palpite, pura interpretação. A gente vai dando opinião sobre tudo e vai esquecendo que as coisas são reféns de como as olhamos. Serão mesmo? A noite não vai se adiantar e aparecer na janela com todo seu frescor. Primeiro terão as horas de sol e copos de água que tentam desabafar o abafado. Tudo se arrasta e apresso o tempo usando fones. A música latina aumenta o calor. Lembro da aula improvisada de salsa. Um, dois, três, cinco, seis, sete. O quatro é dito em silêncio e equivale a pausa. Aprendi num baile desses, dançando com peruanas, cubanas e brasileiras. Todos bailavam, e no salão, a vida parecia mais vida. Ai ai merengue! A música sempre dá as mãos à memória. Basta ouvir algo já ouvido para que a lembrança seja tão inevitável como o trovão após o relâmpago. Ouço música velha pra estar onde já estive? Prefiro achar que é pra que a vida sempre tenha trilha-sonora.
Ouvi semana atrás que a vida no Rio de Janeiro é tão vida quanto nos bailes latinos. Há mais feijão preto e menos pudor. Mas vivo em São Paulo e já nem é tão interessante reclamar do trânsito. Dá-se um jeito de ouvir duas horas de música ou ler pessoas e livros e ruas. Improviso. E não há na entrada da cidade a placa: em construção. Mas todos sabem que as obras hão de acabar, para dar lugar a outras e alguma canção diz ‘tudo parece que é construção e já é ruína’. Tiro o fone e passo a incitar as conversas paralelas. Alguém planeja seu aniversário, ao telefone, num restaurante exótico. Ui. Já me sinto convidado e planejo usar camisa na ocasião. Já não está tão quente e me arrisco a tomar café, sem açúcar, como ando me acostumando. A hora no restaurante exótico parece decidida, nove e meia, na terça. Ninguém diz, mas o saquê do almoço espalhou a preguiça e esparramou os corpos nas cadeiras. O vício leva alguém a se recompor e ir fumar além das dependências do prédio. Fumam na rua, sentados na calçada. Apagam o cigarro e a tarde se apaga. Esquenta a vontade da noite, a vontade dos bailes latinos, a vontade do feijão preto, a vontade de estar a vontade. Que a noite beba café e não esfrie.
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