Andei por um bom tempo, ninguém nas ruas. Dormiam. Sentei e esperei que acordassem. Veio o alvorecer e com ele saíram às ruas comerciantes e trabalhadores. No banco da velha praça minhas meias luziam, clareando o acinzentado chão e a fonte com seu anjo mono-braço. E por entre o jardim e a judiada grade que o protegia, vagarosamente andando, uma senhora corcunda que se torcia dentro do próprio corpo, vinha em minha direção. Era meu momento, de estar além das formas e imagens. Parei e esperei. A velhinha parecia procurar algo no chão de tão inclinada que estava. Acabou, enfim, fixando a atenção em minha meia. Levantou o olhar e na medida em que sua cabeça subia, uma inquietação aumentava em seu corpo. Assustou-se assim, pouco, como quem acha um objeto estranho. Assustou-se assim, muito, como quem vê vida nesse objeto. Gritou quando tentei explicar-lhe que era alguém sem carne, só com idéias e sentimentos. Ela então, de súbito, apresentou uma calma contrastante à tormenta inicial. Perguntou: ‘que diabos de meias são essas se está além das carnes e das aparências?’. E levantando o vestido estampado com flores predominantemente amarelas, mostrou a ausência de carne na região do ventre. Era uma desbarrigada. Assim com um furo no bucho. Quase que perco a mandíbula, de cair o queixo.
Eis eu, descascado de pele, com a desbarrigada de carne. Guardei-nos no bolso oco.
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