sexta-feira, 7 de agosto de 2009

bolso oco

Arranquei toda a carne do meu corpo, guardei num bolso oco. A pele ainda era nova, sem marcas de rugas ou vermelho de sol. Fiquei em pé, defronte ao espelho, com os ossos amarelados tão escassos de carne. Meu corpo estava cru, risível e exposto. Pra que mantê-la? Era só o muro de uma casa que mal se vê por dentro. Olhei minhas canelas ainda mais finas. Senti que meus braços se arrepiariam se ainda estivessem na sua forma original. Tentei sorrir, mas visualmente nada mudava, a expressão era sempre a mesma pra qualquer sentido. Vesti um par de meia laranja e uma boina preta que jamais havia usado por nunca achar combinação oportuna, mas agora, o conjunto parecia esteticamente adequado. Deixei o apartamento em que morei por alguns meses sem se despedir de qualquer objeto que merecesse meu adeus. Desci quatro lances de escada e alcancei a recepção do prédio. Dormia o funcionário com toda a pompa que seu bigode lhe emprestava. Abri a porta e ali estava; a madrugada com suas horas avançadas. Algum cachorro interrompeu seu sono e ergueu o pescoço na minha direção, bocejou e voltou pro descanso. Parei em canto qualquer pra tirar do bolso oco a pele que dobrada estava. Amarrei-a por sobre os ombros. Tal qual uma capa de super-herói, a pele pendulava inquieta.

Andei por um bom tempo, ninguém nas ruas. Dormiam. Sentei e esperei que acordassem. Veio o alvorecer e com ele saíram às ruas comerciantes e trabalhadores. No banco da velha praça minhas meias luziam, clareando o acinzentado chão e a fonte com seu anjo mono-braço. E por entre o jardim e a judiada grade que o protegia, vagarosamente andando, uma senhora corcunda que se torcia dentro do próprio corpo, vinha em minha direção. Era meu momento, de estar além das formas e imagens. Parei e esperei. A velhinha parecia procurar algo no chão de tão inclinada que estava. Acabou, enfim, fixando a atenção em minha meia. Levantou o olhar e na medida em que sua cabeça subia, uma inquietação aumentava em seu corpo. Assustou-se assim, pouco, como quem acha um objeto estranho. Assustou-se assim, muito, como quem vê vida nesse objeto. Gritou quando tentei explicar-lhe que era alguém sem carne, só com idéias e sentimentos. Ela então, de súbito, apresentou uma calma contrastante à tormenta inicial. Perguntou: ‘que diabos de meias são essas se está além das carnes e das aparências?’. E levantando o vestido estampado com flores predominantemente amarelas, mostrou a ausência de carne na região do ventre. Era uma desbarrigada. Assim com um furo no bucho. Quase que perco a mandíbula, de cair o queixo.

Eis eu, descascado de pele, com a desbarrigada de carne. Guardei-nos no bolso oco.


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