Na noite anterior, o mesmo disco que rodava e rodava na vitrola serviu de trilha-sonora para a discussão do casal do 4º andar.
Nota-se aqui que em algum momento o vinil rachou, seja de propósito ou incidentalmente e veio a reduzir-se a cacos até chegar à rua, via saco de lixo.
Imaginemos um casal que quebra discos quando discute. Improvável? Nem tanto. De toda maneira melhor pensarmos nesse delirante palpite do que na simples versão de que o disco apenas caiu quando seria trocado de lado. Nem é o caso de investigar, apenas façamos as reflexivas suposições.
E eis que o cão, que nada tinha com a briga, digeriu o jazz e estranhamente sob o sol do meio-dia, latiu o som de um trompete. Mastigara justamente um trecho de notas graves.
Seu penoso pêlo de cão de rua lhe afigurava um tom maltrapilho e caricato, o que o deixava em maior desarmonia com seu incrível latido-trompete. Era como encontrar uma criança de voz grave! E lá o cão se importava? Latiatrompeteou até que a janela do 4º andar se abriu. O cão percebeu que tinha público e caprichou, latindo todas as notas que pode.
O casal que, supostamente, havia perdido um disco de jazz numa briga qualquer, desceu os quatro lances de escada com a pressa que só é associada aos afobados e encontrou o cão no auge de um solo que parecia carecer de notas agudas.
Reduziram a pressa e em passos lentos foram se aproximando do cão, o rapaz esfregou as mãos nos olhos como quem pretende melhorar a visão. Reconheceu na hora, era Louis Caomstrong.
felipe, muito bom esse conto.
ResponderExcluiradorei.
e adorei o cabeçalho novo, esse fundo meio impressionista. ficou beeem bacana.
hauhuahuhaua
ResponderExcluiramei
demais
Ah tá... Foram quatro lance de escadas e não doze. Podia jurar que o casal era eu e Platão.
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