Cecília me convidara a viajar. Algum país frio. Deveria levar blusa ou deveria comprá-las por lá? Talvez nos esquentássemos. Talvez. Fui convencido quando me disse que poderíamos caminhar por parques em domingos cinza. Era bonito imaginar. Gravei todos os discos que pude, mas não levei blusas. Cecília decidiu me dar a mão quando no meio de uma avenida aceitei seu convite. Parecia emocionada. Fazia doze dias que me conhecia e era a primeira vez que silenciava tanto. Ficamos assim de mãos dadas pensando nos domingos cinza. Cecília, em sua vida, costurava roupas. Cantava enquanto arrancava uma saia ou uma calça de um pano qualquer. Vestia seus vestidos. Gostava mesmo quando colocava a mão na cintura. Um charme. Dormimos juntos nos quatro primeiros dias que nos conhecemos e passei a sorrir um bocado. No quinto dia depois de Cecília em minha vida, decidi voltar pro mundo. Desci as escadas de sua casa e, na rua, olhando pra cima, vi as nuvens em formas de frango. E quando hora mais tarde cheguei ao portão da minha casa, fui como alguém que adivinha que lá ela estaria. E estava. Perguntou o que faltava e foi embora:
- Viajamos?
Fiquei parado, ali na rua. As nuvens agora pareciam pedras de dominó. Tirei o chinelo e pisei no mundo. Anoiteceu e decidi entrar. Comi nada mais não. Dormi de olho fechado não. Fui cedo andar pela cidade. Na banca as notícias. Do lado da banca, a notícia ao vivo: criança qualquer dormindo suja com os braços abertos. Quem sabe abraçava o mundo que não a abraçava. Não me comovi. Lembrei que tinha um emprego. Cheguei ao serviço e ninguém sequer notou ausência minha nos quatro dias de Cecília. Notou um, que sorria eu maior. Fui conferir no espelho e era verdade. Fazia algumas semanas que não via imagem de mim mesmo e lá estava eu sorrindo e de barba. Voltei pra sala maior onde alguns mandavam e alguns obedeciam. Decidi mandar. Mandei tanto que me mandaram embora. Voltei pra cidade e o menino ao lado da banca não mais lá estava. Deitei em seu lugar e abracei o mundo. As pedras de dominó começaram a chorar. Tomei chuva, sozinho. Não queria não. Queria mesmo era que todos os protegidos nos toldos ali comigo estivessem: chuva abaixo. Mas só Cecília permitia chuva até enrugar. Pensei pela primeira vez nas respostas e não mais na pergunta. Viajar era deixar um lugar. Era poder compor nova vida? E a chuva continuava a chover. Nasci sem escolher. Morei em casa que me deram. Aprendi o que me ensinaram. Podia lá eu em terra estrangeira montar vida nova? Sabia resposta nenhuma não. Decidi me esconder sob os toldos e a chuva decidiu parar. Um frio. E quando hora mais tarde subi as escadas pra casa de Cecília, ela cantava e costurava roupa que me coubesse. Um calor.
ihuuuuuuuuulll!!
ResponderExcluirOlha, vou te contar: me surpreendeu! Tanto os detalhes da escrita como o tema (q me é muito caro). Sempre que der, venho visitar!
ResponderExcluirAbraço.