segunda-feira, 29 de setembro de 2014

exercícios e vaidades.

são anos sem escrever. nesse tempo apenas mensagens de texto, poucas cartas de amor, nas datas que se celebram os aniversários, e algum desabafo de alguma angústia. quanto mais escrevo mais limpo fica o pensamento. é como se aos poucos a eloquência do raciocínio tomasse benefício do papel e caneta, voltando ao vocabulário aquelas palavras que são mais comuns grafadas, por exigir da memória mais tempo para nascerem na ponta do lápis do que na ponta da língua. a fala solta não espera, é impulso.

são dias em que voltei a caminhar e após o primeiro diploma de andador passei a aprendiz de corredor. poucos kilômetros atrás eu era sedentário, agora mesmo aqui, depois de circundar esses prédios sou atleta de espírito. me beneficío do banho frio e picoto frutas dentro de um copo, a barriga me envolve na cintura apesar de tudo. planejo um corpo em ordem. tudo é vaidade nos movimentos humanos, fiquei sabendo que a bíblia começa assim: tudo é vaidade. tenho tentado ouvir rádio. apostei nele como a fonte principal de notícias datadas. a curiosidade é menor em relação aos outros, fico a me olhar por dentro, por que tanto me calo. silencioso o barulho não mais agride, todos os espantos a gente já decorou da vida, ficou a busca pelo acaso, os dias de festa, as risadas, a bondade que os outros se educaram e demonstram sutis. tem beleza. os sons são mais elétricos e as bandas nada criam de novo. sonhei que cada lente de um óculos era de um redondo diferente, o olho direito era em formato de ovo, experimentei e achei de um estilo king, bonito.


eu suo na testa todos os sóis, litros. comecei a levar toalhas em todos os cantos e tomei outras chuvas mornas. o guarda-chuva tem goteira e as lágrimas não. são inderramáveis. a rede na varanda me distrai, entro nos apartamentos espelhados e as vidas, todas, são iguais, mas as decorações das casas não. luzes frias, luzes quentes.


os almoços são observados e coloridos, tudo é corpo. quando uma casa é feita pra durar, os materiais que a compõem precisam ser de qualidade. senão as pilastras caem. meu figado engordurou após esfregar chocotones no rosto todo. quanta alegria. nesses dias os dias eram bonitos. 750 gramas numa sentada. deu saudade. mas dizem as tvs que a beleza é fundamental e que os gordinhos são engraçados. eu acho bonitos os corpos que tem gordura elegantemente.


todos gostam dos elogios. mas só te deixam grandes aqueles que creditamos a nós mesmos. gosto é dos defeitos, para tudo há perdão. se deus existe eu quero ver o julgamento final. só pode dar absolvição, exceto para os que cortam fila no trânsito. que deus puna-os, amém. quem pecado não comete é só a consciência sem moral e dedo do meio pra sociedade. tudo permitido quando o careta é sabotar a aparência. a superfície é só a casca, o por dentro é o puro creme do milho. então por que faço abdominais? maravilha, nossa vida, você e eu. o raça negra tem versos melodiosos românticos. é cult gostar de banda pagodinho repique e samba ordinária. publicar textos em blog é vender ideia pra alguém. ninguém quer.


todas as ideias já foram pensadas e emergem de todos os lugares. as conversas todas são tão interessantes que prefiro a tv. de todas as alienações prefiro o futebol. agora tenho um cavaquinho que detona as pontas do dedo. isso dá uma dorzinha de coçar. as amizades são os risos da vida, toda a alegria. o amor é bom apesar de lavar tanta louça. meus dias são cigarros que eu não fumo, pensamentos que eu não permito, gritos que somente eu escuto. nada triste, é interessante inventar sentimentos, ter amizades instantâneas, mudar a voz nos guichês. as gentilezas são pontos positivos, mas a fofoca, pelo jesuis de lapa, que cafona. os shows são de piano, nada triste, tem uma banda animada que sorri e balança, o donato é quem é quem que é um disco bom de se ver. nenhuma palavra solta que escuto me inspira agora. tudo é tempo e algumas coisas são além do tempo.


sexta-feira, 22 de outubro de 2010

concordar em latim quer dizer: colocar o coração junto, aproximar os corações.
dictum et factum. amem.

vox populis

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

sobre disputas políticas

Sempre existe a opção de viver à margem -
tipo mothers fuckers lunáticos e punks mendigos leitores.

mas a gente já está acostumado com nossa tv à cabo e nosso nike bonito, pô.

é tudo consumo malandragem.

de formada

Ama e num demora, no beco, na vida, atrás da escola
na casa, no boteco, no chão do pedinte de esmola

Respira, sopra lento e faz isso no frio do ar do vento
no passar dos anos, assopra enquanto ainda é tempo

Parou morreu reencarnou ressuscitou faleceu, as botas bateu
coberto de vermes da terra de tantas letras que você nunca escreveu

Cai a dor chorada, na página escrita em letra de formada
As gotas gordas molham e grafam, praguejam, aliviam e desabafam

Aceita o azar, ama a sorte, que a vida já vem com a morte,
uma ou outra, e ambas, perambulam até que tudo se esgote

cotidiano circular

Sua vida estava escrita na folha em branco. Escrita com garrancho nenhum, era tudo letra bem caprichada, todas desenhadas circuladas, bonitas. Abriu o pão com a mão e as migalhas caíram por cima da página. Arrancou o miolo pra evitar engordar barriga. A página em branco começava assim: Nasceu vendo tudo! Aí passou manteiga no pão e achou que tinha visto muito não, só assim o que era aceso de cor, ainda mais que tinha ganhado óculos em idade grande, quando foi que passou a vasculhar tudo diferente de antes, sem usar mão nenhuma. Tudo via com olho, apalpado nada mais não. Virou a carta e mordeu o pão. Agora lia a vida de modo avesso. Já queria entender logo o que aconteceria no fim. Ai descobriu que morreu mesmo, não vendo nada. Fez um oras bem alto com a boca, resmungado sabe assim. Picotou a carta e foi tudo posto pra dentro do pão e mordendo depois, foi tudo posto pra dentro da barriga. Papel engordava feito miolo? Ia morrer num vendo nada, tudo escrito na carta. Saiu na rua pra poder é ver tudo de novo e se desse ainda revisar outra vez uma, pra que a cópia da memória ficasse fiel ao que era visto assim da realidade. Ficou confuso. Na calçada da porta da casa já dava pra ver as formigas todas mexendo corpos naquela linha que elas transitam trabalhosas e apressadas. Ficou a ver os insetos que passavam no vão rachado do piso cimentado. Pegou uma e levou a boca, comer formigas melhorava a vista? Dava barriga? Levantou a cabeça e olhou as coisas altas. Demorava olhando mesmo era as dobras daquele prédio de um amarelado desalumiado de gasto. Quando saiu pra comprar pães na padaria, juro mesmo, padaria, notou ali no alto a menina segurando um envelope. Ela parecia pequeníssima no quadrado de uma das imensas janelas daquele prédio. Balançava os braços no alto, como uma fogueira tentando alcançar tamanho alto antes de virar tudo cinzas. E antes que os braços delas cansassem dos movimentos, ele que lá debaixo já a percebia, soube que tudo aquilo de embaraçar os braços segurando uma carta era pra ele mesmo. E voou a carta como escapando da mão da menina da janela grande e parecia que a carta tinha destino não, voando assim fugindo ao olhar e fazendo graça de deitar no vento e foi caindo assim tão devagar, naqueles jeitos de truque de câmera lenta, foi quando achou o trajeto reto em sua direção. Ele praticamente teve todo o tempo pra apenas esticar a mão e a agarrar no ar. Leu nas costas da carta ‘Sua vida escrita na página em branco’. Foi comprar pão e voltou com a carta enfiada no bolso. Depois foi tudo aquilo até comer as formigas. Dava barriga? Levantou a cabeça na direção do prédio com cor amarelada desalumiada, gema de ovo fraca pálida, contou andares, sétimo. Subiu e bateu na porta, ninguém abriu e bateu e ninguém abriu e chamou e ninguém ouviu aí rodou mesmo foi a fechadura. Tudo aberto. Entrou passo curto e sua respiração daquelas rápidas e ofegantes, foi quando a porta atrás bateu forte não, suave. Ficou tudo escuro. Lembrou que no seu fim, não veria nada não. Sentou no chão e ficou a se olhar por dentro, no oco do pensamento. Estava a entender a morte de nada não ver. Foi quando tempo cumprido depois, escapou da mão da menina, e voou janela afora, em forma de carta, sem destino não, voando assim fugindo ao olhar e fazendo graça de deitar no vento e foi caindo assim tão devagar, naqueles jeitos de truque de câmera lenta, foi quando achou o trajeto reto em direção ao escuro. Chegou ao final, nada não vendo, como uma vida escrita numa página em branco.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

sobre temperaturas e impressões.

Um copo de saquê. Uma conversa sobre bairros de uma mesma cidade, com galpões e vernissages que se distinguem. Me deram a chave do carro. Prefiro os vidros abertos, mas ligam o ar-condicionado. Entro numa avenida coberta de sol. Um sol que não condiz com o frio dos últimos meses, como um palavrão num discurso de padre. Começa a lei do fumo, mas ninguém fuma. Piadas. Não consigo rir. Mas fico feliz pela alegria do carro. Estaciono na sombra de um prédio e espio um casal que não combina, talvez busquem sexo. Mas é só um palpite, pura interpretação. A gente vai dando opinião sobre tudo e vai esquecendo que as coisas são reféns de como as olhamos. Serão mesmo? A noite não vai se adiantar e aparecer na janela com todo seu frescor. Primeiro terão as horas de sol e copos de água que tentam desabafar o abafado. Tudo se arrasta e apresso o tempo usando fones. A música latina aumenta o calor. Lembro da aula improvisada de salsa. Um, dois, três, cinco, seis, sete. O quatro é dito em silêncio e equivale a pausa. Aprendi num baile desses, dançando com peruanas, cubanas e brasileiras. Todos bailavam, e no salão, a vida parecia mais vida. Ai ai merengue! A música sempre dá as mãos à memória. Basta ouvir algo já ouvido para que a lembrança seja tão inevitável como o trovão após o relâmpago. Ouço música velha pra estar onde já estive? Prefiro achar que é pra que a vida sempre tenha trilha-sonora.

Ouvi semana atrás que a vida no Rio de Janeiro é tão vida quanto nos bailes latinos. Há mais feijão preto e menos pudor. Mas vivo em São Paulo e já nem é tão interessante reclamar do trânsito. Dá-se um jeito de ouvir duas horas de música ou ler pessoas e livros e ruas. Improviso. E não há na entrada da cidade a placa: em construção. Mas todos sabem que as obras hão de acabar, para dar lugar a outras e alguma canção diz ‘tudo parece que é construção e já é ruína’. Tiro o fone e passo a incitar as conversas paralelas. Alguém planeja seu aniversário, ao telefone, num restaurante exótico. Ui. Já me sinto convidado e planejo usar camisa na ocasião. Já não está tão quente e me arrisco a tomar café, sem açúcar, como ando me acostumando. A hora no restaurante exótico parece decidida, nove e meia, na terça. Ninguém diz, mas o saquê do almoço espalhou a preguiça e esparramou os corpos nas cadeiras. O vício leva alguém a se recompor e ir fumar além das dependências do prédio. Fumam na rua, sentados na calçada. Apagam o cigarro e a tarde se apaga. Esquenta a vontade da noite, a vontade dos bailes latinos, a vontade do feijão preto, a vontade de estar a vontade. Que a noite beba café e não esfrie.

bolso oco

Arranquei toda a carne do meu corpo, guardei num bolso oco. A pele ainda era nova, sem marcas de rugas ou vermelho de sol. Fiquei em pé, defronte ao espelho, com os ossos amarelados tão escassos de carne. Meu corpo estava cru, risível e exposto. Pra que mantê-la? Era só o muro de uma casa que mal se vê por dentro. Olhei minhas canelas ainda mais finas. Senti que meus braços se arrepiariam se ainda estivessem na sua forma original. Tentei sorrir, mas visualmente nada mudava, a expressão era sempre a mesma pra qualquer sentido. Vesti um par de meia laranja e uma boina preta que jamais havia usado por nunca achar combinação oportuna, mas agora, o conjunto parecia esteticamente adequado. Deixei o apartamento em que morei por alguns meses sem se despedir de qualquer objeto que merecesse meu adeus. Desci quatro lances de escada e alcancei a recepção do prédio. Dormia o funcionário com toda a pompa que seu bigode lhe emprestava. Abri a porta e ali estava; a madrugada com suas horas avançadas. Algum cachorro interrompeu seu sono e ergueu o pescoço na minha direção, bocejou e voltou pro descanso. Parei em canto qualquer pra tirar do bolso oco a pele que dobrada estava. Amarrei-a por sobre os ombros. Tal qual uma capa de super-herói, a pele pendulava inquieta.

Andei por um bom tempo, ninguém nas ruas. Dormiam. Sentei e esperei que acordassem. Veio o alvorecer e com ele saíram às ruas comerciantes e trabalhadores. No banco da velha praça minhas meias luziam, clareando o acinzentado chão e a fonte com seu anjo mono-braço. E por entre o jardim e a judiada grade que o protegia, vagarosamente andando, uma senhora corcunda que se torcia dentro do próprio corpo, vinha em minha direção. Era meu momento, de estar além das formas e imagens. Parei e esperei. A velhinha parecia procurar algo no chão de tão inclinada que estava. Acabou, enfim, fixando a atenção em minha meia. Levantou o olhar e na medida em que sua cabeça subia, uma inquietação aumentava em seu corpo. Assustou-se assim, pouco, como quem acha um objeto estranho. Assustou-se assim, muito, como quem vê vida nesse objeto. Gritou quando tentei explicar-lhe que era alguém sem carne, só com idéias e sentimentos. Ela então, de súbito, apresentou uma calma contrastante à tormenta inicial. Perguntou: ‘que diabos de meias são essas se está além das carnes e das aparências?’. E levantando o vestido estampado com flores predominantemente amarelas, mostrou a ausência de carne na região do ventre. Era uma desbarrigada. Assim com um furo no bucho. Quase que perco a mandíbula, de cair o queixo.

Eis eu, descascado de pele, com a desbarrigada de carne. Guardei-nos no bolso oco.


segunda-feira, 1 de junho de 2009

jazz o abençõe.

O cão revirou o saco plástico até que encontrou um jazz num pedaço de disco, ali, misturado aos detritos. Engoliu como se fosse carne.

Na noite anterior, o mesmo disco que rodava e rodava na vitrola serviu de trilha-sonora para a discussão do casal do 4º andar.

Nota-se aqui que em algum momento o vinil rachou, seja de propósito ou incidentalmente e veio a reduzir-se a cacos até chegar à rua, via saco de lixo.

Imaginemos um casal que quebra discos quando discute. Improvável? Nem tanto. De toda maneira melhor pensarmos nesse delirante palpite do que na simples versão de que o disco apenas caiu quando seria trocado de lado. Nem é o caso de investigar, apenas façamos as reflexivas suposições.

E eis que o cão, que nada tinha com a briga, digeriu o jazz e estranhamente sob o sol do meio-dia, latiu o som de um trompete. Mastigara justamente um trecho de notas graves.

Seu penoso pêlo de cão de rua lhe afigurava um tom maltrapilho e caricato, o que o deixava em maior desarmonia com seu incrível latido-trompete. Era como encontrar uma criança de voz grave! E lá o cão se importava? Latiatrompeteou até que a janela do 4º andar se abriu. O cão percebeu que tinha público e caprichou, latindo todas as notas que pode.

O casal que, supostamente, havia perdido um disco de jazz numa briga qualquer, desceu os quatro lances de escada com a pressa que só é associada aos afobados e encontrou o cão no auge de um solo que parecia carecer de notas agudas.

Reduziram a pressa e em passos lentos foram se aproximando do cão, o rapaz esfregou as mãos nos olhos como quem pretende melhorar a visão. Reconheceu na hora, era Louis Caomstrong.


terça-feira, 26 de maio de 2009

tenho um fusca e um violão.

video


existe tudo, existe nada: eu nada posso sem a alma

eu fico seco, eu falo nada: eu sei escrevo existe a fala

posso mudo ser o mundo, ter o gosto e dar a calma

olhar a frente é imprudente, eu temo o pente, coisa rara

ser ausente diferente, pessoalmente, gosto que me tara

fumar gentil, ser cruel: seu pai de pé se extinguiu

cadê vagou, não pode ir subiu amou, gostou ficou

não quero ter o teu presente, quem falou adivinhou, a forma de repente

sai assim assim assado: toda a vida agora do meu lado

quem foi nunca mais se foi.

Cecília me convidara a viajar. Algum país frio. Deveria levar blusa ou deveria comprá-las por lá? Talvez nos esquentássemos. Talvez. Fui convencido quando me disse que poderíamos caminhar por parques em domingos cinza. Era bonito imaginar. Gravei todos os discos que pude, mas não levei blusas. Cecília decidiu me dar a mão quando no meio de uma avenida aceitei seu convite. Parecia emocionada. Fazia doze dias que me conhecia e era a primeira vez que silenciava tanto. Ficamos assim de mãos dadas pensando nos domingos cinza. Cecília, em sua vida, costurava roupas. Cantava enquanto arrancava uma saia ou uma calça de um pano qualquer. Vestia seus vestidos. Gostava mesmo quando colocava a mão na cintura. Um charme. Dormimos juntos nos quatro primeiros dias que nos conhecemos e passei a sorrir um bocado. No quinto dia depois de Cecília em minha vida, decidi voltar pro mundo. Desci as escadas de sua casa e, na rua, olhando pra cima, vi as nuvens em formas de frango. E quando hora mais tarde cheguei ao portão da minha casa, fui como alguém que adivinha que lá ela estaria. E estava. Perguntou o que faltava e foi embora:

- Viajamos?

Fiquei parado, ali na rua. As nuvens agora pareciam pedras de dominó. Tirei o chinelo e pisei no mundo. Anoiteceu e decidi entrar. Comi nada mais não. Dormi de olho fechado não. Fui cedo andar pela cidade. Na banca as notícias. Do lado da banca, a notícia ao vivo: criança qualquer dormindo suja com os braços abertos. Quem sabe abraçava o mundo que não a abraçava. Não me comovi. Lembrei que tinha um emprego. Cheguei ao serviço e ninguém sequer notou ausência minha nos quatro dias de Cecília. Notou um, que sorria eu maior. Fui conferir no espelho e era verdade. Fazia algumas semanas que não via imagem de mim mesmo e lá estava eu sorrindo e de barba. Voltei pra sala maior onde alguns mandavam e alguns obedeciam. Decidi mandar. Mandei tanto que me mandaram embora. Voltei pra cidade e o menino ao lado da banca não mais lá estava. Deitei em seu lugar e abracei o mundo. As pedras de dominó começaram a chorar. Tomei chuva, sozinho. Não queria não. Queria mesmo era que todos os protegidos nos toldos ali comigo estivessem: chuva abaixo. Mas só Cecília permitia chuva até enrugar. Pensei pela primeira vez nas respostas e não mais na pergunta. Viajar era deixar um lugar. Era poder compor nova vida? E a chuva continuava a chover. Nasci sem escolher. Morei em casa que me deram. Aprendi o que me ensinaram. Podia lá eu em terra estrangeira montar vida nova? Sabia resposta nenhuma não. Decidi me esconder sob os toldos e a chuva decidiu parar. Um frio. E quando hora mais tarde subi as escadas pra casa de Cecília, ela cantava e costurava roupa que me coubesse. Um calor.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

porque cargas d'água um blog?

O ventilador alivia os 172º graus que faz em meu quarto. Fecho a porta, a janela e abro a imensa torneira fincada na parede. Eis o barulho do cômodo inundando-se.

A torneira tem a boca larga e em alguns minutos faz as primeiras poças. Meu chinelo bóia de ponta cabeça. Me mantenho escrevendo e começo a pensar na água entrando pelas tomadas. Danou-se.


Não importa. Fiz um blog pra aprender a nadar e nadar.
Escrevo para tampar as torneiras que eu mesmo abro.