sexta-feira, 7 de agosto de 2009

sobre temperaturas e impressões.

Um copo de saquê. Uma conversa sobre bairros de uma mesma cidade, com galpões e vernissages que se distinguem. Me deram a chave do carro. Prefiro os vidros abertos, mas ligam o ar-condicionado. Entro numa avenida coberta de sol. Um sol que não condiz com o frio dos últimos meses, como um palavrão num discurso de padre. Começa a lei do fumo, mas ninguém fuma. Piadas. Não consigo rir. Mas fico feliz pela alegria do carro. Estaciono na sombra de um prédio e espio um casal que não combina, talvez busquem sexo. Mas é só um palpite, pura interpretação. A gente vai dando opinião sobre tudo e vai esquecendo que as coisas são reféns de como as olhamos. Serão mesmo? A noite não vai se adiantar e aparecer na janela com todo seu frescor. Primeiro terão as horas de sol e copos de água que tentam desabafar o abafado. Tudo se arrasta e apresso o tempo usando fones. A música latina aumenta o calor. Lembro da aula improvisada de salsa. Um, dois, três, cinco, seis, sete. O quatro é dito em silêncio e equivale a pausa. Aprendi num baile desses, dançando com peruanas, cubanas e brasileiras. Todos bailavam, e no salão, a vida parecia mais vida. Ai ai merengue! A música sempre dá as mãos à memória. Basta ouvir algo já ouvido para que a lembrança seja tão inevitável como o trovão após o relâmpago. Ouço música velha pra estar onde já estive? Prefiro achar que é pra que a vida sempre tenha trilha-sonora.

Ouvi semana atrás que a vida no Rio de Janeiro é tão vida quanto nos bailes latinos. Há mais feijão preto e menos pudor. Mas vivo em São Paulo e já nem é tão interessante reclamar do trânsito. Dá-se um jeito de ouvir duas horas de música ou ler pessoas e livros e ruas. Improviso. E não há na entrada da cidade a placa: em construção. Mas todos sabem que as obras hão de acabar, para dar lugar a outras e alguma canção diz ‘tudo parece que é construção e já é ruína’. Tiro o fone e passo a incitar as conversas paralelas. Alguém planeja seu aniversário, ao telefone, num restaurante exótico. Ui. Já me sinto convidado e planejo usar camisa na ocasião. Já não está tão quente e me arrisco a tomar café, sem açúcar, como ando me acostumando. A hora no restaurante exótico parece decidida, nove e meia, na terça. Ninguém diz, mas o saquê do almoço espalhou a preguiça e esparramou os corpos nas cadeiras. O vício leva alguém a se recompor e ir fumar além das dependências do prédio. Fumam na rua, sentados na calçada. Apagam o cigarro e a tarde se apaga. Esquenta a vontade da noite, a vontade dos bailes latinos, a vontade do feijão preto, a vontade de estar a vontade. Que a noite beba café e não esfrie.

bolso oco

Arranquei toda a carne do meu corpo, guardei num bolso oco. A pele ainda era nova, sem marcas de rugas ou vermelho de sol. Fiquei em pé, defronte ao espelho, com os ossos amarelados tão escassos de carne. Meu corpo estava cru, risível e exposto. Pra que mantê-la? Era só o muro de uma casa que mal se vê por dentro. Olhei minhas canelas ainda mais finas. Senti que meus braços se arrepiariam se ainda estivessem na sua forma original. Tentei sorrir, mas visualmente nada mudava, a expressão era sempre a mesma pra qualquer sentido. Vesti um par de meia laranja e uma boina preta que jamais havia usado por nunca achar combinação oportuna, mas agora, o conjunto parecia esteticamente adequado. Deixei o apartamento em que morei por alguns meses sem se despedir de qualquer objeto que merecesse meu adeus. Desci quatro lances de escada e alcancei a recepção do prédio. Dormia o funcionário com toda a pompa que seu bigode lhe emprestava. Abri a porta e ali estava; a madrugada com suas horas avançadas. Algum cachorro interrompeu seu sono e ergueu o pescoço na minha direção, bocejou e voltou pro descanso. Parei em canto qualquer pra tirar do bolso oco a pele que dobrada estava. Amarrei-a por sobre os ombros. Tal qual uma capa de super-herói, a pele pendulava inquieta.

Andei por um bom tempo, ninguém nas ruas. Dormiam. Sentei e esperei que acordassem. Veio o alvorecer e com ele saíram às ruas comerciantes e trabalhadores. No banco da velha praça minhas meias luziam, clareando o acinzentando chão e a fonte com seu anjo mono-braço. E por entre o jardim e a judiada grade que o protegia, vagarosamente andando, uma senhora corcunda que se torcia dentro do próprio corpo, vinha em minha direção. Era meu momento, de estar além das formas e imagens. Parei e esperei. A velhinha parecia procurar algo no chão de tão inclinada que estava. Acabou, enfim, fixando a atenção em minha meia. Levantou o olhar e na medida em que sua cabeça subia, uma inquietação aumentava em seu corpo. Assustou-se assim, pouco, como quem acha um objeto estranho. Assustou-se assim, muito, como quem vê vida nesse objeto. Gritou quando tentei explicar-lhe que era alguém sem carne, só com idéias e sentimentos. Ela então, de súbito, apresentou uma calma contrastante à tormenta inicial. Perguntou: ‘que diabos de meias são essas se está além das carnes e das aparências?’. E levantando o vestido estampado com flores predominantemente amarelas, mostrou a ausência de carne na região do ventre. Era uma desbarrigada. Assim com um furo no bucho. Quase que perco a mandíbula, de cair o queixo.

Eis eu, descascado de pele, com a desbarrigada de carne. Guardei-nos no bolso oco.


sexta-feira, 5 de junho de 2009

sobre listas e gostos.

A idéia das listas é inspirada numa crônica de Paulo Mendes Campos.


Abomináveis:

- Carregar moedas
- Fofocas.
- Fazer a barba.
- Fazer aniversário.
- Falar ao telefone com semi-conhecidos.
- Gola de camiseta frouxa.
- Curintiano.
- Lentilha.
- Engarrafamento.
- Voz esganiçada.
- Corte no pé em semana de Carnaval.
- Dias sem ouvir música.
- Filme dublado.
- Esquecer a carteira em casa.
- Brincadeira de mão.
- Songo-mongos.
- A transição da calvície pra carequice.
- Piada repetida.
- Frases de efeito.
- Cofrinho a mostra.
- Gente avarenta.
- Indicação de recepcionista de locadora.
- Correspondência de banco.
- Vendedor que diz: ‘Tem, mas acabou!’
- Gordura no bife.
- Recipiente de doce vazio, ‘põe pra lavar pô!’
- Novela
- Truco com baralho limpo.
- Cachorros acrobatas.
- Gente que vai embora.
- Rasgo na roupa.
- Pobre bajulando rico.
- Rico bajulando pobre.
- Esperar um telefonema com ansiedade e, vai atender, é engano.
- Computador lento.
- Sujeito falsamente importante.
- Multa por falta de lente corretiva.
- Ir trabalhar com chuva.
- Ir trabalhar com sol.
- Bife de fígado.
- Roupa com cheiro de guardado.
- Gente que cospe.
- Fone que falha de um lado.
- Pseudo-intelectuais que se convencem de si mesmos.
- Textura de música popular quando tocada em rádio AM.
- Muito sorriso em terra de pouca graça.
- Coreldraw.
- Chocolate requenguela.
- Marmita.
- Espinha interna no nariz.
- Crianças prodígios.
- Pingo de molho de tomate na roupa.
- Gente que fala leeeeento.
- Rima mal feita.
- Acordar cedo no fim de semana.
- Acordar cedo durante a semana.
- Sempre ter que soletrar meu sobrenome: ‘O D é mudo mesmo!’
- Oscar.
- Chinelo Rider.
- Pedra nos rins.
- Teto baixo.


Deleitáveis:

- Dormir cansado.
- Tomar chuva.
- Tocar violão com a casa vazia.
- São Paulo de madrugada.
- Ultrapassar carros importados, de Fusca.
- Salgados de padaria.
- Inventar vozes esquisitas.
- Presunto e queijo.
- O pôr-do-sol na Praia.
- Crise de Riso.
- Frio na barriga de ansiedade.
- Pessoas que se sacodem ouvindo música.
- Explicações em situações inexplicáveis.
- Inventar apelidos.
- Inventar palavras.
- Expressões antigas.
- Tomar sol.
- Ouvir música no escuro.
- Trocar o dia pela noite.
- Viajar.
- Fazer alguém sorrir.
- Desenhar enquanto falo ao telefone.
- Cumprimentar desconhecidos.
- Conhecer gente.
- Fotos bregas.
- Boinas e Chapéus.
- Tropicália.
- Mulher com borogodó.
- Enroscos.
- Sorriso de gente feia.
- Histórias de gente idosa.
- Achar dinheiro.
- Morumbi em jogo decisivo.
- Andar descalço.
- Comprar a canastra limpa.
- Inventar histórias pra taxistas.
- Coca-cola.
- Combinação de cores improváveis.
- Dançar uns passinhos rascunhados e epiléticos.
- Instrumentos esquisitos (uma vez um cara tocou uma folha de árvore, várias notas. Palavra!)
- Barulho de cidade.
- Voltar de viagem.
- Comida da vó.
- Personagens do Tarantino.
- Geléia de gordura de Baleia.
- Sílvio Santos.
- Jogos de Tabuleiro.
- Pagar à vista.
- Lasanha.
- Feira de Artesanatos
- Hippies
- Foto em que a gente fica mais bonito do que é.
- Água de geladeira, às cinco da manhã, depois de uma festa.
- Conseguir cochilar em viagem.
- Ganhar discos.
- Ganhar roupa e não precisar trocar.
- Filme em feriado chuvoso.
- Imaginar trilha-sonora pra cada ocasião da vida.
- Cerveja e papo-furado.
- Cachorro que balança o rabo.
- Gente feia com voz bonita.
- Fazer o gol decisivo na final do colégio.
- Octogenário lúcido e lépido.
- Show de rua no centro de São Paulo.
- Qualquer sotaque.
- Cheiro de livro novo.
- Ser o último a votar.
- Bisbilhotar biblioteca dos outros.
- Gente engraçada.
- Fotografia antiga.
- Violão na praia.
- Estar vivo.
- Descobrir que viver é de graça.
- Poder falar a verdade.
- Ser feio.
- Ficar de bermuda o dia inteiro.
- Ler no ônibus.
- Andar de bicicleta.
- Manifestações de carinho.
- Mendigos que pedem dinheiro pra beber.
- Acertar a hora.
- Falar com eco.
- Casa com rede.
- Seguir ônibus de táxi.
- Chocolate.
- Trabalhar ouvindo música.
- Teletubbies vendendo algodão-doce.
- Onomatopéias.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

jazz o abençõe.

O cão revirou o saco plástico até que encontrou um jazz num pedaço de disco, ali, misturado aos detritos. Engoliu como se fosse carne.

Na noite anterior, o mesmo disco que rodava e rodava na vitrola serviu de trilha-sonora para a discussão do casal do 4º andar.

Nota-se aqui que em algum momento o vinil rachou, seja de propósito ou incidentalmente e veio a reduzir-se a cacos até chegar à rua, via saco de lixo.

Imaginemos um casal que quebra discos quando discute. Improvável? Nem tanto. De toda maneira melhor pensarmos nesse delirante palpite do que na simples versão de que o disco apenas caiu quando seria trocado de lado. Nem é o caso de investigar, apenas façamos as reflexivas suposições.

E eis que o cão, que nada tinha com a briga, digeriu o jazz e estranhamente sob o sol do meio-dia, latiu o som de um trompete. Mastigara justamente um trecho de notas graves.

Seu penoso pêlo de cão de rua lhe afigurava um tom maltrapilho e caricato, o que o deixava em maior desarmonia com seu incrível latido-trompete. Era como encontrar uma criança de voz grave! E lá o cão se importava? Latiatrompeteou até que a janela do 4º andar se abriu. O cão percebeu que tinha público e caprichou, latindo todas as notas que pode.

O casal que, supostamente, havia perdido um disco de jazz numa briga qualquer, desceu os quatro lances de escada com a pressa que só é associada aos afobados e encontrou o cão no auge de um solo que parecia carecer de notas agudas.

Reduziram a pressa e em passos lentos foram se aproximando do cão, o rapaz esfregou as mãos nos olhos como quem pretende melhorar a visão. Reconheceu na hora, era Louis Caomstrong.


terça-feira, 26 de maio de 2009

tenho um fusca e um violão.

video


existe tudo, existe nada: eu nada posso sem a alma

eu fico seco, eu falo nada: eu sei escrevo existe a fala

posso mudo ser o mundo, ter o gosto e dar a calma

olhar a frente é imprudente, eu temo o pente, coisa rara

ser ausente diferente, pessoalmente, gosto que me tara

fumar gentil, ser cruel: seu pai de pé se extinguiu

cadê vagou, não pode ir subiu amou, gostou ficou

não quero ter o teu presente, quem falou adivinhou, a forma de repente

sai assim assim assado: toda a vida agora do meu lado

quem foi nunca mais se foi.

Cecília me convidara a viajar. Algum país frio. Deveria levar blusa ou deveria comprá-las por lá? Talvez nos esquentássemos. Talvez. Fui convencido quando me disse que poderíamos caminhar por parques em domingos cinza. Era bonito imaginar. Gravei todos os discos que pude, mas não levei blusas. Cecília decidiu me dar a mão quando no meio de uma avenida aceitei seu convite. Parecia emocionada. Fazia doze dias que me conhecia e era a primeira vez que silenciava tanto. Ficamos assim de mãos dadas pensando nos domingos cinza. Cecília, em sua vida, costurava roupas. Cantava enquanto arrancava uma saia ou uma calça de um pano qualquer. Vestia seus vestidos. Gostava mesmo quando colocava a mão na cintura. Um charme. Dormimos juntos nos quatro primeiros dias que nos conhecemos e passei a sorrir um bocado. No quinto dia depois de Cecília em minha vida, decidi voltar pro mundo. Desci as escadas de sua casa e, na rua, olhando pra cima, vi as nuvens em formas de frango. E quando hora mais tarde cheguei ao portão da minha casa, fui como alguém que adivinha que lá ela estaria. E estava. Perguntou o que faltava e foi embora:

- Viajamos?

Fiquei parado, ali na rua. As nuvens agora pareciam pedras de dominó. Tirei o chinelo e pisei no mundo. Anoiteceu e decidi entrar. Comi nada mais não. Dormi de olho fechado não. Fui cedo andar pela cidade. Na banca as notícias. Do lado da banca, a notícia ao vivo: criança qualquer dormindo suja com os braços abertos. Quem sabe abraçava o mundo que não a abraçava. Não me comovi. Lembrei que tinha um emprego. Cheguei ao serviço e ninguém sequer notou ausência minha nos quatro dias de Cecília. Notou um, que sorria eu maior. Fui conferir no espelho e era verdade. Fazia algumas semanas que não via imagem de mim mesmo e lá estava eu sorrindo e de barba. Voltei pra sala maior onde alguns mandavam e alguns obedeciam. Decidi mandar. Mandei tanto que me mandaram embora. Voltei pra cidade e o menino ao lado da banca não mais lá estava. Deitei em seu lugar e abracei o mundo. As pedras de dominó começaram a chorar. Tomei chuva, sozinho. Não queria não. Queria mesmo era que todos os protegidos nos toldos ali comigo estivessem: chuva abaixo. Mas só Cecília permitia chuva até enrugar. Pensei pela primeira vez nas respostas e não mais na pergunta. Viajar era deixar um lugar. Era poder compor nova vida? E a chuva continuava a chover. Nasci sem escolher. Morei em casa que me deram. Aprendi o que me ensinaram. Podia lá eu em terra estrangeira montar vida nova? Sabia resposta nenhuma não. Decidi me esconder sob os toldos e a chuva decidiu parar. Um frio. E quando hora mais tarde subi as escadas pra casa de Cecília, ela cantava e costurava roupa que me coubesse. Um calor.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

porque cargas d'água um blog?

O ventilador alivia os 172º graus que faz em meu quarto. Fecho a porta, a janela e abro a imensa torneira fincada na parede. Eis o barulho do cômodo inundando-se.

A torneira tem a boca larga e em alguns minutos faz as primeiras poças. Meu chinelo bóia de ponta cabeça. Me mantenho escrevendo e começo a pensar na água entrando pelas tomadas. Danou-se.


Não importa. Fiz um blog pra aprender a nadar e nadar.
Escrevo para tampar as torneiras que eu mesmo abro.