sexta-feira, 22 de outubro de 2010
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
sobre disputas políticas
tipo mothers fuckers lunáticos e punks mendigos leitores.
mas a gente já está acostumado com nossa tv à cabo e nosso nike bonito, pô.
é tudo consumo malandragem.
de formada
Ama e num demora, no beco, na vida, atrás da escola
na casa, no boteco, no chão do pedinte de esmola
Respira, sopra lento e faz isso no frio do ar do vento
no passar dos anos, assopra enquanto ainda é tempo
Parou morreu reencarnou ressuscitou faleceu, as botas bateu
coberto de vermes da terra de tantas letras que você nunca escreveu
Cai a dor chorada, na página escrita em letra de formada
As gotas gordas molham e grafam, praguejam, aliviam e desabafam
Aceita o azar, ama a sorte, que a vida já vem com a morte,
uma ou outra, e ambas, perambulam até que tudo se esgote
cotidiano circular
Sua vida estava escrita na folha em branco. Escrita com garrancho nenhum, era tudo letra bem caprichada, todas desenhadas circuladas, bonitas. Abriu o pão com a mão e as migalhas caíram por cima da página. Arrancou o miolo pra evitar engordar barriga. A página em branco começava assim: Nasceu vendo tudo! Aí passou manteiga no pão e achou que tinha visto muito não, só assim o que era aceso de cor, ainda mais que tinha ganhado óculos em idade grande, quando foi que passou a vasculhar tudo diferente de antes, sem usar mão nenhuma. Tudo via com olho, apalpado nada mais não. Virou a carta e mordeu o pão. Agora lia a vida de modo avesso. Já queria entender logo o que aconteceria no fim. Ai descobriu que morreu mesmo, não vendo nada. Fez um oras bem alto com a boca, resmungado sabe assim. Picotou a carta e foi tudo posto pra dentro do pão e mordendo depois, foi tudo posto pra dentro da barriga. Papel engordava feito miolo? Ia morrer num vendo nada, tudo escrito na carta. Saiu na rua pra poder é ver tudo de novo e se desse ainda revisar outra vez uma, pra que a cópia da memória ficasse fiel ao que era visto assim da realidade. Ficou confuso. Na calçada da porta da casa já dava pra ver as formigas todas mexendo corpos naquela linha que elas transitam trabalhosas e apressadas. Ficou a ver os insetos que passavam no vão rachado do piso cimentado. Pegou uma e levou a boca, comer formigas melhorava a vista? Dava barriga? Levantou a cabeça e olhou as coisas altas. Demorava olhando mesmo era as dobras daquele prédio de um amarelado desalumiado de gasto. Quando saiu pra comprar pães na padaria, juro mesmo, padaria, notou ali no alto a menina segurando um envelope. Ela parecia pequeníssima no quadrado de uma das imensas janelas daquele prédio. Balançava os braços no alto, como uma fogueira tentando alcançar tamanho alto antes de virar tudo cinzas. E antes que os braços delas cansassem dos movimentos, ele que lá debaixo já a percebia, soube que tudo aquilo de embaraçar os braços segurando uma carta era pra ele mesmo. E voou a carta como escapando da mão da menina da janela grande e parecia que a carta tinha destino não, voando assim fugindo ao olhar e fazendo graça de deitar no vento e foi caindo assim tão devagar, naqueles jeitos de truque de câmera lenta, foi quando achou o trajeto reto em sua direção. Ele praticamente teve todo o tempo pra apenas esticar a mão e a agarrar no ar. Leu nas costas da carta ‘Sua vida escrita na página em branco’. Foi comprar pão e voltou com a carta enfiada no bolso. Depois foi tudo aquilo até comer as formigas. Dava barriga? Levantou a cabeça na direção do prédio com cor amarelada desalumiada, gema de ovo fraca pálida, contou andares, sétimo. Subiu e bateu na porta, ninguém abriu e bateu e ninguém abriu e chamou e ninguém ouviu aí rodou mesmo foi a fechadura. Tudo aberto. Entrou passo curto e sua respiração daquelas rápidas e ofegantes, foi quando a porta atrás bateu forte não, suave. Ficou tudo escuro. Lembrou que no seu fim, não veria nada não. Sentou no chão e ficou a se olhar por dentro, no oco do pensamento. Estava a entender a morte de nada não ver. Foi quando tempo cumprido depois, escapou da mão da menina, e voou janela afora, em forma de carta, sem destino não, voando assim fugindo ao olhar e fazendo graça de deitar no vento e foi caindo assim tão devagar, naqueles jeitos de truque de câmera lenta, foi quando achou o trajeto reto em direção ao escuro. Chegou ao final, nada não vendo, como uma vida escrita numa página em branco.
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
sobre temperaturas e impressões.
Ouvi semana atrás que a vida no Rio de Janeiro é tão vida quanto nos bailes latinos. Há mais feijão preto e menos pudor. Mas vivo em São Paulo e já nem é tão interessante reclamar do trânsito. Dá-se um jeito de ouvir duas horas de música ou ler pessoas e livros e ruas. Improviso. E não há na entrada da cidade a placa: em construção. Mas todos sabem que as obras hão de acabar, para dar lugar a outras e alguma canção diz ‘tudo parece que é construção e já é ruína’. Tiro o fone e passo a incitar as conversas paralelas. Alguém planeja seu aniversário, ao telefone, num restaurante exótico. Ui. Já me sinto convidado e planejo usar camisa na ocasião. Já não está tão quente e me arrisco a tomar café, sem açúcar, como ando me acostumando. A hora no restaurante exótico parece decidida, nove e meia, na terça. Ninguém diz, mas o saquê do almoço espalhou a preguiça e esparramou os corpos nas cadeiras. O vício leva alguém a se recompor e ir fumar além das dependências do prédio. Fumam na rua, sentados na calçada. Apagam o cigarro e a tarde se apaga. Esquenta a vontade da noite, a vontade dos bailes latinos, a vontade do feijão preto, a vontade de estar a vontade. Que a noite beba café e não esfrie.
bolso oco
Andei por um bom tempo, ninguém nas ruas. Dormiam. Sentei e esperei que acordassem. Veio o alvorecer e com ele saíram às ruas comerciantes e trabalhadores. No banco da velha praça minhas meias luziam, clareando o acinzentado chão e a fonte com seu anjo mono-braço. E por entre o jardim e a judiada grade que o protegia, vagarosamente andando, uma senhora corcunda que se torcia dentro do próprio corpo, vinha em minha direção. Era meu momento, de estar além das formas e imagens. Parei e esperei. A velhinha parecia procurar algo no chão de tão inclinada que estava. Acabou, enfim, fixando a atenção em minha meia. Levantou o olhar e na medida em que sua cabeça subia, uma inquietação aumentava em seu corpo. Assustou-se assim, pouco, como quem acha um objeto estranho. Assustou-se assim, muito, como quem vê vida nesse objeto. Gritou quando tentei explicar-lhe que era alguém sem carne, só com idéias e sentimentos. Ela então, de súbito, apresentou uma calma contrastante à tormenta inicial. Perguntou: ‘que diabos de meias são essas se está além das carnes e das aparências?’. E levantando o vestido estampado com flores predominantemente amarelas, mostrou a ausência de carne na região do ventre. Era uma desbarrigada. Assim com um furo no bucho. Quase que perco a mandíbula, de cair o queixo.
Eis eu, descascado de pele, com a desbarrigada de carne. Guardei-nos no bolso oco.
segunda-feira, 1 de junho de 2009
jazz o abençõe.
Na noite anterior, o mesmo disco que rodava e rodava na vitrola serviu de trilha-sonora para a discussão do casal do 4º andar.
Nota-se aqui que em algum momento o vinil rachou, seja de propósito ou incidentalmente e veio a reduzir-se a cacos até chegar à rua, via saco de lixo.
Imaginemos um casal que quebra discos quando discute. Improvável? Nem tanto. De toda maneira melhor pensarmos nesse delirante palpite do que na simples versão de que o disco apenas caiu quando seria trocado de lado. Nem é o caso de investigar, apenas façamos as reflexivas suposições.
E eis que o cão, que nada tinha com a briga, digeriu o jazz e estranhamente sob o sol do meio-dia, latiu o som de um trompete. Mastigara justamente um trecho de notas graves.
Seu penoso pêlo de cão de rua lhe afigurava um tom maltrapilho e caricato, o que o deixava em maior desarmonia com seu incrível latido-trompete. Era como encontrar uma criança de voz grave! E lá o cão se importava? Latiatrompeteou até que a janela do 4º andar se abriu. O cão percebeu que tinha público e caprichou, latindo todas as notas que pode.
O casal que, supostamente, havia perdido um disco de jazz numa briga qualquer, desceu os quatro lances de escada com a pressa que só é associada aos afobados e encontrou o cão no auge de um solo que parecia carecer de notas agudas.
Reduziram a pressa e em passos lentos foram se aproximando do cão, o rapaz esfregou as mãos nos olhos como quem pretende melhorar a visão. Reconheceu na hora, era Louis Caomstrong.
terça-feira, 26 de maio de 2009
tenho um fusca e um violão.
existe tudo, existe nada: eu nada posso sem a alma
eu fico seco, eu falo nada: eu sei escrevo existe a fala
posso mudo ser o mundo, ter o gosto e dar a calma
olhar a frente é imprudente, eu temo o pente, coisa rara
ser ausente diferente, pessoalmente, gosto que me tara
fumar gentil, ser cruel: seu pai de pé se extinguiu
cadê vagou, não pode ir subiu amou, gostou ficou
não quero ter o teu presente, quem falou adivinhou, a forma de repente
sai assim assim assado: toda a vida agora do meu lado
quem foi nunca mais se foi.
- Viajamos?
Fiquei parado, ali na rua. As nuvens agora pareciam pedras de dominó. Tirei o chinelo e pisei no mundo. Anoiteceu e decidi entrar. Comi nada mais não. Dormi de olho fechado não. Fui cedo andar pela cidade. Na banca as notícias. Do lado da banca, a notícia ao vivo: criança qualquer dormindo suja com os braços abertos. Quem sabe abraçava o mundo que não a abraçava. Não me comovi. Lembrei que tinha um emprego. Cheguei ao serviço e ninguém sequer notou ausência minha nos quatro dias de Cecília. Notou um, que sorria eu maior. Fui conferir no espelho e era verdade. Fazia algumas semanas que não via imagem de mim mesmo e lá estava eu sorrindo e de barba. Voltei pra sala maior onde alguns mandavam e alguns obedeciam. Decidi mandar. Mandei tanto que me mandaram embora. Voltei pra cidade e o menino ao lado da banca não mais lá estava. Deitei em seu lugar e abracei o mundo. As pedras de dominó começaram a chorar. Tomei chuva, sozinho. Não queria não. Queria mesmo era que todos os protegidos nos toldos ali comigo estivessem: chuva abaixo. Mas só Cecília permitia chuva até enrugar. Pensei pela primeira vez nas respostas e não mais na pergunta. Viajar era deixar um lugar. Era poder compor nova vida? E a chuva continuava a chover. Nasci sem escolher. Morei em casa que me deram. Aprendi o que me ensinaram. Podia lá eu em terra estrangeira montar vida nova? Sabia resposta nenhuma não. Decidi me esconder sob os toldos e a chuva decidiu parar. Um frio. E quando hora mais tarde subi as escadas pra casa de Cecília, ela cantava e costurava roupa que me coubesse. Um calor.
segunda-feira, 25 de maio de 2009
porque cargas d'água um blog?
A torneira tem a boca larga e em alguns minutos faz as primeiras poças. Meu chinelo bóia de ponta cabeça. Me mantenho escrevendo e começo a pensar na água entrando pelas tomadas. Danou-se.
Não importa. Fiz um blog pra aprender a nadar e nadar.
Escrevo para tampar as torneiras que eu mesmo abro.


